
Aos 34 anos, o músico e compositor Saulo DS, natural de Santa Gertrudes, acumula uma trajetória marcante no cenário underground regional. Com passagens por bandas como Traxte, Lactobacilos Vivos, Tribu Hot, Ramoneudes, e atualmente ativo na Garrafa Vazia e no Tributo All Rock – além da Alerta Mental, hoje em hiato -, o multi-instrumentista transita com facilidade entre a intensidade física dos palcos e a calmaria reflexiva da escrita. Em entrevista, Saulo analisa sua performance, os desafios da música independente e o processo de transposição de suas inquietações para a poesia digital.
ENERGIA EM MOVIMENTO
Quem já assistiu a uma apresentação de Saulo certamente testemunhou sua marca registrada: o salto explosivo durante as execuções. Para o músico, o movimento físico vai muito além do apelo estético, funcionando como uma extensão da própria sonoridade. “É bem por esse caminho mesmo, da energia, da conexão com as pessoas… É como se representasse a energia que a música tem, a explosão daquele instante, mas de uma forma natural, por impulso, o peso da música proporciona isso”, explica. Ele complementa que o gesto expressa o desejo de “estar dançando com as pessoas também, porém com o instrumento na mão”.
Para Saulo, essa entrega quase teatral no palco é fundamental para consolidar a experiência da música ao vivo em tempos de consumo digital. Ele defende que a presença física gera um nível de imersão insubstituível. “O olho no olho, a experiência presencial, faz toda diferença”, afirma. “Não é ‘eu assisti’, é ‘eu estava lá, e tenho mais para contar. Eu senti'”.
O EQUILÍBRIO ENTRE O TRIBUTO E O AUTORAL
Dividindo-se entre o Tributo All Rock — projeto voltado a clássicos do CPM 22 ao System of a Down — e a entrega crua de seus trabalhos autorais, o músico vivencia duas dinâmicas distintas. Segundo ele, o trabalho cover oferece uma diversão compartilhada com o público que já conhece o repertório, enquanto o autoral traz uma realização mais profunda. “As bandas autorais são o que sou, o que quero criar, o que quero passar. E bandas que tocam cover são o que gosto de ouvir e cantar para pessoas que gostem também”, diferencia.

Embora o início no Tributo All Rock tenha gerado um certo nervosismo pela quebra de padrão, Saulo explica que logo se sentiu em casa. No campo da composição, ele pontua que as estruturas consagradas do rock e do metal que executa nos tributos atuam de forma sutil em seu repertório pessoal, embora mantenha uma identidade clara. “No autoral, eu acredito que tenho bem ideia do que busco soar, com certas influências também do punk, hardcore e metal, mas não é impossível que ocorra alguma influência”, avalia.
PAUSA NO ALERTA MENTAL

Fundada em 2013, a banda de punk rock/hardcore Alerta Mental passa atualmente por um período de hiato. A interrupção temporária ocorreu após a mudança do baterista Pancher, que ingressou no curso de Medicina em outro estado. Saulo revela que a rotatividade de integrantes sempre foi um desafio na trajetória do grupo devido às demandas do cotidiano, mas garante que o projeto segue ativo internamente. “Com certeza o alerta está ligado, se energizando, e havendo um trabalho mental de calmaria para entender a pausa”, pondera.
Atualmente, o grupo busca um novo baterista que compartilhe de seus ideais e possua domínio de pedal duplo para retomar os ensaios e apresentações. “Se você toca bateria, pedal duplo, compartilha do ideal, mande sua cartinha pra gente. Ou chama no Zap”, convida o músico.
Paralelamente, o processo do primeiro disco de estúdio segue em andamento, embora sem uma data de lançamento definida. O material conta com seis faixas gravadas. “Ocorreu um problema com a gravação da bateria. O Pancher está gravando conforme consegue e enviando. Logo após, faremos a masterização no estúdio e, enfim, sai”, adianta o vocalista.
A Alerta Mental possui 10 canções ao vivo disponíveis no Youtube, algumas na plataforma Soundcloud, além de um cover da banda de hardcore Dezakato, disponível no Spotify. Os interessados em realizar uma audição para ser o novo baterista da Alerta Mental podem entrar em contato pelo canal da banda no Instagram.
A CENA INDEPENDENTE
Ao analisar a cena independente da região, Saulo enxerga um movimento de resistência alimentado pelo esforço coletivo de produtores, bares e do próprio público. No entanto, ele aponta obstáculos culturais que dificultam a massificação do cenário local, ressaltando que há uma tendência em “valorizar, por vezes idolatrar, o que já chega em casa como famoso pelas mídias em geral”, enquanto há uma imensa quantidade de talentos no underground que operam sem grande apoio financeiro.
Sobre a união entre as bandas e os músicos, Saulo percebe duas realidades distintas. De um lado, há uma parcela que demonstra desinteresse pelo crescimento mútuo e pelo suporte recíproco. De outro, destaca-se um núcleo engajado. “Existe a parcela mais consciente e condizente, se apoiando, frequentando, fazendo parcerias, e surgem acontecimentos históricos na vida de quem vive isso”, relata.
O músico também destaca a complexidade de viver de arte no Brasil, especialmente no nicho autoral e contracultural. “Para bandas autorais é imensamente difícil viver de música. No punk, não estamos ali para lucro; as ajudas vão para a viagem, instrumentos, gravação. Todos têm seus trabalhos, o que dificulta se entregar por inteiro. O jeito de lidar é ir seguindo em frente, fazendo o máximo com o que temos”, desabafa.
POESIA DIGITAL
Fora dos palcos, Saulo utiliza seu perfil no Instagram como um canal de vazão para poemas, crônicas e observações cotidianas. Ele define o espaço virtual como uma ferramenta de dupla via: “Gosto de descrever sobre tudo que penso (…) Acredito que isso englobe entender o mundo e se entender”. A transição entre a postura enérgica dos palcos e a calmaria da escrita é descrita por ele como uma alternância de momentos complementares. “Às vezes, os gritos são desejando esse momento de paz que, quando alcançado, se deseja dividir. Sem querer, eles reforçam o porquê dos gritos”, reflete.
Escritos de improviso e frequentemente estruturados em rimas, muitos desses textos acabam migrando para as composições musicais. O desejo de compilar essa produção literária em um formato físico ou visual também faz parte dos planos do artista, embora esbarre na falta de tempo. Em relação aos temas que guiam sua escrita, a motivação principal reside no inconformismo social. “O que me motiva a escrever é expressar as indignações e valorizar as coisas boas. Indignações na área social e no comportamento individual, seja sobre a desigualdade social ou o pré-julgamento de alguém sobre você. É a busca por liberdade, igualdade e união”, conclui. Para acompanhar os textos de Saulo DS siga pelo perfil do artista.







