
Por Willian Nagib Filho*
O motorista de um Corsa assaltado à mão armada perseguiu e atropelou os criminosos, que morreram prensados. Nas redes vê-se de tudo: debates até que bem técnicos, outros espalhafatosos, outros com viés politizado e por aí vai. Para alguns, é o herói que o país precisa.
O caso é gravíssimo sob todo e qualquer enfoque. O esgotamento diante da violência urbana debilita a sensação de segurança institucional e leva cidadãos comuns a respostas desproporcionais, sem mensurar consequências.
Sob ameaça armada, o organismo libera altas cargas de adrenalina e cortisol, ativando o sistema de sobrevivência: passado o perigo imediato da abordagem, a frustração, a sensação de vulnerabilidade e a raiva geram uma reação impulsiva de revanche ou resgate do patrimônio, na qual o controle racional é momentaneamente suplantado pelo impulso de justiça com as próprias mãos.
A reação do motorista do Corsa é entendida como um acting out — descarga impulsiva de violência que transforma um sofrimento psíquico insuportável em ação direta. O assalto com arma de fogo não é apenas a perda de bens materiais, é uma violência contra a integridade pessoal. O sentimento de impotência é seguido da quebra de controle ante o trauma súbito que desorganiza as defesas emocionais do indivíduo
Em simples palavras, a justiça com as próprias mãos substitui o sistema jurídico legal pela vingança privada, numa reação popular que expõe a percepção coletiva de que o Estado é incapaz de garantir a segurança pública.
Quando os cidadãos passam a agir e são festejados e ovacionados como juízes e executores, a linha que separa o cidadão do criminoso se apaga.
Enquanto a validação social desse tipo de conduta em redes sociais e canais de mídia encoraja outras pessoas a agirem igual, o motorista do Corsa sofrerá processo crime, pois essa é a regra constitucional do jogo, gostem ou não! Poderá ir para Júri, inclusive, e ninguém estará lá para socorrê-lo.
A violência humana é imitativa (mimética). Se no assalto o criminoso deseja e toma o objeto (e a soberania) da vítima, o motorista do Corsa, ao perseguir e matar, entra no mesmo jogo mimético, passando a desejar a posição de poder, controle e violência que o assaltante acabou de exercer sobre ele.
Quando essa violência mimética se espalha, ela ameaça destruir a comunidade. Para frear essa destruição, as sociedades canalizam sua raiva para um alvo comum: o bode expiatório. No debate público, os assaltantes mortos assumem esse papel para uma parte da sociedade. Ao aplaudir o atropelamento, a comunidade transfere sua frustração acumulada com a violência diária para aqueles corpos. A morte deles funciona como uma “catarse” temporária que alivia a tensão social, gerando uma sensação momentânea de justiça ou ordem, mas não resolve a raiz do problema, perpetuando o ciclo.
A diferença entre a justiça institucional e a vingança privada não está na ausência de violência, mas no fato de que a violência legal do tribunal é a última, enquanto a da vingança é apenas o começo de uma nova cadeia.
Para que o sistema jurídico funcione, os cidadãos precisam acreditar que o Estado punirá o agressor. Quando o processo é percebido como lento, brando ou ineficaz, o Estado perde o monopólio moral da força e a vítima sente-se autorizada a restabelecer a simetria por conta própria, espelhando a violência sofrida.
Tudo se agrava em dupla crise: sensação de impunidade generalizada na sociedade em relação a crimes urbanos e o colapso do sistema punitivo e prisional.
Tempos difíceis. Quem por nós?
*O autor é advogado







