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Smee e o rock and roll na Terra do Nunca

Referência regional, o músico de Santa Gertrudes, prepara o lançamento do single "No One" da sua banda Mad Grace; Paralelamente, deve lançar a faixa Eco com o músico Rangel Barel
Referência regional, o músico de Santa Gertrudes, prepara o lançamento do single “No One” da sua banda Mad Grace; Paralelamente, deve lançar a faixa Eco com o músico Rangel Barel

A virada dos anos 90 para os anos 2000 foi marcada por profundas transformações culturais e comportamentais na juventude. Em uma época que antecedeu a conectividade instantânea e os smartphones, a experiência dos jovens que experimentavam o surgimento da internet discada, girava em torno de mídias impressas, como revistas especializadas, e fundamentalmente, da televisão aberta. A MTV desempenhou um papel central na difusão do rock, propagando vertentes que iam do grunge ao nu metal, movimento este que mesclou o peso do metal com elementos do hip-hop e da música eletrônica, influenciando toda uma geração de novos músicos.

Nesse contexto de efervescência cultural tem início a trajetória do músico Lourenço Pedro Milani, 43, conhecido artisticamente como Smee. Residente em Santa Gertrudes, o artista, que toca guitarra, violão, baixo e gaita, recorda o início de sua relação com a música ainda na infância por intermédio dos pais.

“Sempre gostei de música desde criança. Meus pais ouviam Beatles, Creedence, Rita Lee, Raul Seixas, Michael Jackson e também muito samba e músicas dos anos 40 e 50, como Frank Sinatra e Nat King Cole. Na pré-adolescência comecei a me interessar pelo rock por influência massiva da MTV, que foi onde me despertou a vontade de aprender a tocar”, afirma o músico.

A primeira experiência em grupo ocorreu no ambiente escolar, em 1997, durante a oitava série do ensino fundamental: Los Fudêncios. [A banda foi] formada em 1997 quando estávamos todos na oitava série, ensaiamos uma ou duas vezes para tocar no último dia de aula do ano letivo. Tocamos Ramones, Nirvana, Sex Pistols, Raimundos, Titãs, Ultraje a Rigor. Um ano depois, em 1998, a banda mudou de nome e virou Ramones Not Dead, onde tocávamos exclusivamente Ramones”, detalha.

A EFERVESCÊNCIA DA CENA

Na transição para a década de 2000, o cenário regional vivenciou uma proliferação de grupos focados no rock internacional e nacional. A banda Otherside, liderada por Smee, foi um dos destaques do período ao reinterpretar canções de Alice in Chains, Pearl Jam e Red Hot Chili Peppers.

“Otherside foi uma verdadeira escola musical, pois meus amigos e eu já havíamos estado em algumas bandas antes, mas essa banda apresentava um desafio maior, com músicas mais elaboradas, arranjos mais trabalhados e ritmos complexos. Todos os integrantes da banda evoluíram muito em muito pouco tempo”, analisa.

Naquela época, Santa Gertrudes registrou um movimento expressivo de bandas autorais e de covers, impulsionado pela cooperação entre os próprios jovens da comunidade roqueira. É difícil mensurar o número de bandas daquele período, mas a contabilidade informal aponta para mais de 30 bandas no município.

“No final dos anos 90 havia muitas bandas aqui na cidade, e a maioria delas era composta pelos mesmos integrantes ou por amigos próximos, ou seja, as bandas se acompanhavam, participávamos dos ensaios uns dos outros, andávamos na mesma turma e mesmo assim a diversidade sonora era grande, havia espaço pra todos, como o rock, pop, punk, metal, grunge, nu metal. Haviam muitos eventos feitos por nós mesmos onde essas bandas tocavam e sempre buscamos ajuda da prefeitura para realizar esses eventos, principalmente a Tarde do Rock que acontece há mais de 30 anos na cidade”, relata.

Sobre o panorama atual do município, o músico observa mudanças na estrutura da cena, apontando a permanência de espaços voltados ao estilo. “A cidade sempre contou com muitos músicos de muitos gêneros, principalmente dentro das vertentes do rock. Hoje há menos bandas, mas há o Let’s Go Bar que traz muitas atrações, inclusive muitas bandas internacionais do underground já tocaram aqui. O Let’s Go tem sido muito importante nos últimos quatro anos, pois vem fomentando a cena com muita força”, pontua.

TRAJETÓRIA

Ao longo de sua carreira, Smee calcula ter integrado cerca de 20 formações musicais
Ao longo de sua carreira, Smee calcula ter integrado cerca de 20 formações musicais

Ao longo de sua carreira, Smee calcula ter integrado cerca de 20 formações musicais, abrangendo bandas cover, projetos acústicos, trabalhos autorais e apresentações em eventos festivos. No campo da criação autoral, participou de projetos em diferentes fases: a própria Otherside (1999), o grupo Escaravelhos (2007) – que registrou materiais audiovisuais no YouTube — e a banda Burning Machines (2017), com a qual lançou um EP em plataformas digitais.

Atualmente, o músico integra o projeto autoral Mad Grace. A banda, que já havia lançado o álbum Sangue (produzido por Alonso Góes no Sub Estúdio, em Rio Claro), reformulou sua formação e processo de composição em 2025. A formação passou a contar com Pedro (vocal, guitarra e compositor principal), Smee (baixo, vocal e compositor) e Alonso (bateria e produção).

“Depois dessa mudança de integrantes a banda desenvolveu uma nova dinâmica de composição onde todos participam. Na maioria das vezes é o Pedro quem traz as ideias para que eu e o Alonso a lapidemos, mas não há uma regra, pois eu trago ideias que são trabalhadas também, assim como o Alonso faz o mesmo. Ou seja, é um processo livre e tranquilo, com muita experimentação até que cheguemos a um ponto em comum”, explica.

Smee integrou a banda  Burning Machines em 2017 e gravou um EP que está disponível nas plataformas digitais
Smee integrou a banda Burning Machines em 2017 e gravou um EP que está disponível nas plataformas digitais

O grupo mantém suas letras no idioma inglês, aproveitando também a atuação profissional de Smee como professor de inglês há 15 anos. “A banda conta agora com dois vocalistas, dividindo as vozes e as letras, que podem ser escritas a partir de temas centrais, frases soltas, palavras que achamos interessantes ou as vezes até um jogo de palavras ou rimas sem sentido, para que depois transformemos em algo que soe bem e ‘faça sentido’. As composições são em inglês desde o começo da banda, algo que me favorece bastante pois já compus muito em inglês, além de ser professor de inglês há 15 anos”, acrescenta.

PERSPECTIVAS

Com sua banda atual, a Mad Grace, formada por Alonso, Pedro e Smee
Com sua banda atual, a Mad Grace, formada por Alonso, Pedro e Smee

Além da Mad Grace, o músico desenvolve parcerias com o artista solo Rangel Barel e participa de ensaios com a Tribu Hot, banda tributo ao Red Hot Chili Peppers da qual fez parte por quatro anos e com a qual tem apresentação agendada no Sujinhos Bar para o dia 25 de outubro. Paralelamente, atua no circuito de bares e eventos com um repertório solo focado em voz e violão.

“Eu faço voz e violão em alguns bares da região e festas fechadas tocando pop e rock nacional e internacional, dos anos 60 até algumas coisas atuais. Esse tipo de trabalho é bom, mas também pode se tornar exaustivo às vezes por conta do lugar ou do público. Existem alguns lugares que fico mais à vontade para tocar apenas o que gosto sem a pretensão de agradar o público em geral, que é o caso do Sujinhos, onde as pessoas vão pra ver esse repertório mais rock e menos pop. Há lugares que pagam bem, já outros nem tanto. Minha intenção é fazer esse trabalho cada vez menos e focar mais na música autoral”, avalia.

Quanto ao espaço para a produção autoral no cenário contemporâneo, Smee destaca o papel do circuito independente frente às transformações tecnológicas de gravação e distribuição.

“Sim, muitas bandas estão gravando, tocando, mas em um circuito mais específico. Creio que o rock autoral respira mais no underground. Com toda tecnologia que temos hoje a produção ficou mais democrática, ou seja, consigo gravar um álbum sozinho em casa, mas por outro lado a qualidade tem caído, pois muitas músicas são produzidas e lançadas todos os dias, muitas vezes sem uma produção mais refinada. Mas se procurarmos por bandas de rock autorais, vamos encontrar muitas, todas lutando por seu espaço por mais difícil que seja, pois o Brasil não é o ‘país do rock'”, afirma.

Entre os lançamentos previstos, estão a faixa “Eco”, em parceria com Rangel Barel, acompanhada de videoclipe no YouTube, e o single “No One”, da Mad Grace.

Ao sintetizar suas metas artísticas, o músico conclui: “Tenho ambições bem simples na verdade, que são: fazer música, gravar, tocar e pagar minhas contas, afinal não é fácil viver de rock no país do sertanejo universitário! Poder me expressar de muitas formas através da música, criar, compartilhar, pois toda vez que o Pedro ou o Alonso me apresentam uma ideia, ela passa por mim e se transforma, como se fôssemos filtros uns dos outros, criando assim essa mistura que é a Mad Grace. Quero fazer isso até quando minha saúde e mobilidade me permitirem!”.

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