Radio Cidade FM 107,9

Menos inviolável do que a pedra dos túmulos

Por Raphael Domingos*

“Duas vezes se morre: primeiro na carne, depois no nome.” A frase de Manuel Bandeira afirma a triste verdade da qual fogem os homens: você morrerá e depois será esquecido. Penso nessa ideia há muito tempo, tempo suficiente até para se esquecer do porquê de se ter um dia pensado nisso.

Uns dirão que a vida nos sopra essa verdade com o intuito de nos fazer vivê-la melhor; outros, que é um lembrete de que somos pó e que não devemos, arrogantemente, nos conceber mais do que somos. O fato é que continuamos vivendo apesar disso, com essa pedra no sapato. Como Sísifo, continuamos a rolar a rocha ao píncaro dia após dia. E se cá estamos mais uma vez nessa árdua e repetitiva tarefa, devo concluir que ainda vale a pena viver. Mas para mim não é como se apenas viver bastasse. Talvez — e apenas talvez — deste fim trágico possa se extrair algo mais, algo necessário.

Provavelmente há quem diga que Sísifo não passa de um pobre e miserável condenado a uma triste labuta, e que seus empreendimentos são todos vãos, visto que inevitavelmente fracassarão. Não compartilho dessa opinião. Ele quiçá é o herói que mais se assemelha a nós. Está perto de nós por ser um mero mortal e está conosco por também fugir da morte — chegando até mesmo a enganá-la, como conta o mito. Apenas lhe falta o roteiro digno de um final triunfal, com o qual nem moira nem poeta o agraciaram. Ao menos, o que lhe escasseia em sorte sobra-lhe em audácia. No entanto, nenhuma dessas qualidades sobrepuja a única que o torna eleito como herói, e sobretudo como o maior herói dos homens: a coragem. A coragem cuja natureza não se mostra ingênua ou sobrenatural, mas resoluta, consciente.

Como bem disse Albert Camus, Sísifo compreende seu destino e apropria-se dele. Ao reconhecer que a pedra é sua e que seu trabalho é fruto de sua própria condição humana, Sísifo reduz os deuses à impotência. Ele não é maior que seu castigo, mas ainda assim é senhor de seus dias. O que nos permite aceitar uma verdade escondida: “É preciso imaginar Sísifo feliz.”

Penso que, ao pesarmos a vida, não obtemos um valor legível, mas substituímo-lo por outros ditos grandiosos e que para nós são valorosos. Viktor Frankl, no momento em que, despido e humilhado, se desfazia de seus pertences, recusou-se a entregar ao guarda em Auschwitz um pequeno pedaço de papel que continha sua tese acadêmica: Cura Médica de Almas. Naquele instante, simples e funesto, arriscara tudo o que tinha por uma obra. Da mesma forma — mais felizes, espero —, fazemo-lo todos os dias, ocupando-nos com trabalho, arte, música, esporte, viagens. Nosso guarda é apenas outro: é o tempo, mas este nos furta com mais paciência.

E dessa forma somos todos cercados: ora pelo destino, ora pelo tempo que levará tudo de nós. Mas, se ainda assim escolhemos a vida, seremos proporcionalmente corajosos e potencialmente felizes.

*O autor é professor de Língua Portuguesa

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