Por Raphael Domingos*

Entre todos os empreendimentos, ler é sempre o mais humilde. É rebaixar-se perante as palavras e por elas deixar-se guiar, sentir; é suspender a própria vida e viver uma falsa, da qual se pode ou não tirar algum proveito. Vale a pena jogar tal jogo tão arriscado? Fazer renúncia à vida? Adianto aos leitores que aqui somente encontrarão parte da resposta.
Para se chegar a ela, no entanto, é necessário que se conceba primeiro o que é literatura. Ora, essa não é tarefa fácil, e pode-se dizer, também, que há um quê de fenomenológico na literatura, visto que cada um a define a partir de sua experiência com as letras. Todavia, há um componente que não escapa a nenhuma das possíveis definições: a literatura é um recorte da realidade.
A forma mais simples de se entender esse princípio é dizer que a literatura é como uma fotografia. Nela há conteúdo, sim, há pessoas, paisagens; mas também há forma. Exposição de luz, contrastes, ângulos. A união da forma e do conteúdo, ambos presos neste pedaço de papel, dá sentido àquele que a vê. Uma foto, porém, jamais pode conter toda a realidade. No entanto, embora imperfeita, ela nos permite acessar o momento — um pequeno pedaço de vida — de forma única. Ler também nos dá essa possibilidade. Contudo, nos leva além.
Segundo Albert Camus, todo romance é uma filosofia posta em imagens. Por trás da beleza há uma ideia, uma filosofia. Juntando ideias e filosofias, forma-se continuamente o critério que usamos para julgar tudo o que há. Olhando o passado, também se olha o presente. Tudo isso contido na ficção — “a verdade dentro da mentira”, como disse King. Mas se tudo isso não o bastar, leia ao menos os clássicos e aceite estas palavras emprestadas por Calvino em Por que ler os clássicos?:
A única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos. E se alguém objetar que não vale a pena tanto esforço, recorro a Cioran, que resgatou os últimos momentos do filósofo grego:
Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta.
— Para que lhe servirá? — perguntaram-lhe.
— Para aprender esta ária antes de morrer.
Portanto, cá está a parte da resposta prometida no início: ler é melhor do que não ler.
*O autor é professor de Língua Portuguesa







