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Invencível sob o sol

Por Raphael Domingos*

O mangá Vagabond, escrito e desenhado por Takehiko Inoue é  baseada no romance Musashi, de Eiji Yoshikawa. Começou a ser publicado em 1998 e tem 37 volumes tankōbon lançados
O mangá Vagabond, escrito e desenhado por Takehiko Inoue é baseada no romance Musashi, de Eiji Yoshikawa. Começou a ser publicado em 1998 e tem 37 volumes tankōbon lançados

Em 1998, a revista Morning publicava os primeiros capítulos de Vagabond, mangá de Takehiko Inoue baseado na obra de Eiji Yoshikawa sobre a vida de Miyamoto Musashi, popularmente conhecido como o maior espadachim do Japão. Como esperado do talento de Inoue, a obra tornou-se um marco.

Mas, ao contrário do que se espera da jornada de um ronin lendário, Vagabond se preocupa mais com o autodesenvolvimento em vez do espetáculo da violência. E, diga-se de passagem, há feitos impressionantes de Musashi ao longo da história: sobreviver à batalha de Sekigahara, vencer o fora da lei Baiken, superar os mestres da escola Yoshioka e combater sozinho 70 espadachins que o emboscaram. Contudo, o que realmente nos conecta a Musashi não são seus feitos de armas, mas sua evolução pessoal.

Ao invadir a propriedade do clã Yagyu para desafiar o lendário Sekishusai – tido como invencível -, Musashi o encontra velho, frágil e decrépito. Diante da serenidade daquele homem indefeso, o jovem hesita. Musashi então pergunta: “O que significa ser invencível?”. Tranquilo, Sekishusai responde: “Tudo se resume a viver ou morrer, certo? Nadando em um vasto oceano, ninguém percebe o quão vasto ele é. Invencível é apenas uma palavra”.

“Invencível é apenas uma palavra”. Essa afirmação põe em xeque tudo pelo que lutou o protagonista: sua jornada sangrenta, seus árduos treinos, suas decisões. Por que, afinal, continuar lutando? O que é a verdadeira força? A verdade é que a maioria dos inimigos de Musashi só se tornaram seus inimigos porque ele os forçou a isso.  Se impor, muitas vezes, não é coragem, mas medo. E a glória revela-se uma ilusão sem dono, que se esquiva justamente daqueles que a perseguem.

Nos capítulos mais recentes da obra, motivado a ajudar os moradores de uma vila devastada pela fome, Musashi abandona a espada para cultivar um solo infértil. O cultivo é destruído por chuvas, pragas e por um inverno severo. Ao ver os camponeses morrerem de inanição, ele decide implorar por comida ao nobre da região vizinha. Musashi sacrifica seu ego, seu orgulho e sua liberdade para salvá-los. O jovem, antes violento e arrogante, agora é um homem humilde e bondoso.

No fim, certas estavam as palavras do monge Takuan: os verdadeiramente fortes são gentis.

*O autor é professor de Língua Portuguesa

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